“Olhe lá, sotôr…” – tenho de admitir que gosto quando a conversa começa assim. Primeiro, porque reconhecem que existe uma relação de confiança entre nós, tal que não se importam de expor as suas dúvidas sabendo que será esclarecida à melhor das minhas habilidades; e em segundo lugar, porque é destes inícios de frase que vem muita da matéria-prima de qualidade para escrever qualquer coisa. – “Então é verdade que as estatinas fazem mal? / Que posso tratar piolhos com vinagre? / Que posso usar papas de aveia para a varicela? / Que o produto X está cheio de químicos que fazem mal?”

Seguem-se todas as respostas à maior parte destas perguntas, organizadas de acordo com a frequência de uso e importância do assunto:

“Mais ou menos”.

Tendo em conta a quantidade estonteante de informação que parece ter organizado uma competição olímpica para ser digna da nossa atenção, é complicado a qualquer indivíduo sozinho ter a noção do que é verdadeiro, do que é falso, do que é opinião e do que são fontes credíveis dessa mesma informação.

É então compreensível que o dito indivíduo, chamemos-lhe Zé, se tenha de guiar por algum lado, e como tal consulte aqueles cuja profissão inclui “tratar da saúde do Zé”.

O que o Zé esquece, no entanto, é que esses mesmos profissionais podem não ter as respostas que o Zé quer ouvir. E podem até nem ter respostas bonitas e certeiras.

Senhor Zé, digo-lhe eu agora e é para fixar: A Ciência não é perfeita. Mas é muita boa.

Isto significa que se quer respostas certas, verdades incontestáveis e universais acerca da melhor forma de cuidar o seu corpo em particular, então AZAR, porque o máximo que a Medicina lhe pode oferecer é uma resposta aproximada, ponderada e contingente.

E, no entanto, essa resposta aproximada já nos permitiu chegar aonde chegámos! Por isso ponha-lhe a fé toda que quiser, mas não espere é que ela obedeça a todos os critérios que lhe quer impingir.

Deixemo-nos de filosofias.

Vou tentar apresentar ao Sr. Zé alguns pensamentos que toda a gente deve ter perante qualquer coisa que seja relativa à saúde (e, na realidade, relativo a muita outra coisa, mas vamo-nos focar nisto):

O que distingue a cura do veneno, é a dose. – Isto foi mais ou menos dito por um tipo sensato chamado Paracelso no séc. XVI. Não é uma lei universal. Há alguns compostos raros que são mais perigosos em doses baixas, e há sempre a possibilidade de algo numa dose baixa se ir acumulando no organismo, tornando-se tóxico ao atingir determinada dose.

Tudo é Química. – Por amor do deus, não me venham mais com “está cheio de produtos químicos”. Claro que está. Tudo está. O corpo do Sr. Zé (até a sua extensa barriga) são baterias químicas em constante transformação, moléculas a trocarem átomos entre si, fazendo e desfazendo as ligações mais complexas a um ritmo alucinante. E se assim não fosse, então não estaria vivo. É verdade que há compostos químicos que são perigosos mesmo em doses mais baixas, mas a maioria destes são tratados na “máquina química humana” em diversas formas (nomeadamente através do fígado, dos rins, dos pulmões etc.). E caso tenha dificuldade em lembrar-se que tudo é Química, lembre-se que o arsénico, ou a cicuta, ou uma outra centena de venenos, é tudo também matéria “natural”.

3º Testemunhos não validam tratamentos [pode ler mais AQUI]. – Isto é mais difícil de aceitar, eu sei. Mas agora imagine o seguinte: A sua Maria estava cheia de dores no abdómen e decidiu tomar um tal de ibuprofeno. Da próxima vez, o Sr. Zé tem uma dor de barriga e o que é que decide tomar? Ora, o bendito ibuprofeno, que fez tão bem à sua Maria. Fez bem, certo? Errado. A Dª Maria tinha uma dor “de senhora”, e o Sr. Zé tinha flatulência por libertar. Claro que o ibuprofeno fez bem à Dª Maria, mas ao Sr. Zé não fez rigorosamente nada. E isto é independente de as dores lhe passarem a si também ou não, porque esse efeito nunca teria como causa o facto de ter tomado o medicamento.

Mas então o que é que é suposto eu fazer?!

Primeiro que tudo,informe-se. E isto é bem mais difícil do que parece, porque não se pode confiar em toda a gente que tem uma opinião acerca de uma coisa. A internet é genial, mas encontrar a informação que é fidedigna não é das coisas mais simples. Aplique os 3 princípios a tudo o que lê, e ainda um…

4º – Aceite tudo apenas parcialmente. Mesmo que lhe faça sentido, não mergulhe de cabeça numa cura ou tratamento “milagroso” que lhe foi recomendado (por um amigo, familiar, ou na internet).

TIRE as DÚVIDAS com um PROFISSIONAL DE SAÚDE. Pode não lhe dar a resposta que quer ouvir. Mas irá, se ele trabalhar dentro dos princípios éticos que regem a sua profissão, providenciar-lhe a resposta que é de facto melhor para si.

Vamos então responder às questões colocadas no início do texto:

AS ESTATINAS FAZEM MAL? As Estatinas são umas das melhores armas que temos contra a redução da mortalidade por causas cardiovasculares. Reduzem os níveis de colesterol que o nosso próprio corpo tende a produzir em excesso (normalmente por motivos genéticos ou comportamentais). Apesar disso, têm alguns efeitos secundários (como dores musculares, que são os mais comuns), e há algum indício que possam ter outros efeitos a longo prazo. COMO TODOS OS MEDICAMENTOS, tem de ser feita uma análise caso-a-caso de risco/benefício. Se o risco cardiovascular da pessoa é muito elevado, então faz sentido tentarmos reduzir esse risco ao máximo. Se não for, então pode ou não fazer sentido, dependendo da situação. Na minha opinião, o que faz SEMPRE sentido é irmos questionando acerca da situação. Por vezes uma estatina deixa de ser necessária, quando o risco diminui. Por vezes, passa a ser necessária de novo. Mas tal como eu não me sinto habilitado a dizer QUANDO, também a pessoa não está. Fale com o seu médico.

POSSO TRATAR PIOLHOS COM VINAGRE? Tive alguma dificuldade em investigar sobre este assunto, no entanto transmito aqui a informação que me pareceu mais sólida. Colocar vinagre no cabelo tem 2 efeitos possíveis: pode descolar algumas das lêndeas, por dissolver a “cola” com que elas se prendem ao cabelo, e pode (ainda que não tenha encontrado dados sobre isto) afugentar alguns piolhos devido ao cheiro intenso. Em comparação com os óleos de silicone (ciclometicone, dimeticone etc.) isto é um efeito muito fraquinho e com muito mais inconvenientes e possíveis efeitos secundários. Em comparação com os inseticidas (permetrina) é possível que tenha menos possibilidade de efeitos secundários, mas ainda assim não se compara em eficácia e pessoalmente não lavaria a cabeça de um bebé muito jovem com vinagre (que não tenha um bom controlo da qualidade). Não está a gostar do resultado dos tratamentos habituais? Experimente seguir as instruções à risca, repetir o tratamento semanalmente, e principalmente advertir a criança que não pode andar de cabeça colada com as colegas só porque estão todas em volta do mesmo telemóvel. Se ainda assim não estiver a produzir resultados, experimente o vinagre se quiser, em princípio não terá grande problema, desde que não o faça com muita frequência.

POSSO USAR PAPAS DE AVEIA PARA a VARICELA? Pode. Uma vez mais, há loções e cremes bem mais eficazes e confortáveis de aplicar, mas existe alguma evidência que a aveia numa espécie de banho poderá dar algum efeito calmante à pele em comichão. Não se engane, no entanto: isto é só para aliviar a comichão. Não vai curar nem sequer reduzir a duração da doença. Também, se fizer este banho de aveia, não se esqueça de limpar bem a pele em seguida, porque a aveia sobre uma borbulha pode criar um bom foco para uma infeção (bacteriana p. ex)

Pessoalmente, ficar-me-ia pelas loções de calamina (óxido de zinco e ferro), por vezes associadas a outro antipruriginoso, como um antihistaminico tópico nas zonas mais comichosas.

Que o produto X está cheio de químicos- Sim. Já vimos que sim. Mas vou reiterar: a química é a fonte da vida. E se há coisa que os produtos químicos da farmácia têm e os outros não têm é a avaliação de risco/benefício: cada medicamento tem evidência científica que comprova que, no âmbito da sua utilização recomendada, os benefícios suplantam os riscos. Isto pode parecer pouco, mas acredite que é o que marca TODA A DIFERENÇA.

Texto escrito pelo João.

Em caso de dúvida pergunte à sua farmacêutica 🙂

 

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