PORQUE É QUE OS MEDICAMENTOS TÊM PRAZO DE VALIDADE?

Chegada esta altura, e apesar do calor que se sente ainda este ano, começam a surgir ao balcão aquelas situações de constipações e tosses que por vezes resultam na seguinte troca de palavras:

“Gostaria de *cof*cof*cof* *som de gato a ser estrangulado*”. Imediatamente ao ser apresentado com o medicamento que sugiro a resposta é “Ah, eu tenho disso lá em casa do ano passado ainda, deve estar bom. Obrigado.”

Porque é que os medicamentos têm prazo de validade?

As coisas estragam-se: é um facto da vida. Aquilo que nos rodeia são átomos em moléculas em colisão, constantemente mudando. Por vezes a mudança é lenta, como quando falamos da decomposição de alguns plásticos que sabemos demorar centenas de anos… Por vezes é rápida, como quando deixamos a sopa fora do frigorífico e ao fim de dois dias está azeda.

Destes exemplos podemos ficar a perceber duas coisas acerca da mudança de medicamentos:

  •  Depende das condições em que foram armazenados (se estava ou não no frio);
  • Depende do tipo de coisa que é (se é plástico ou sopa ou outra coisa qualquer).

Os processos que fazem com que os medicamentos se estraguem são muitos e variados, mas o importante a reter daqui é que lá porque são sintetizados em laboratório ou porque aparecem numa forma que se nos aparenta mais ou menos invulnerável, não implica que não se estejam a degradar.

Quando um medicamento é autorizado a ser comercializado tem de trazer consigo alguns “estudos de estabilidade”, ou seja, a informação do que acontece quando está exposto a determinadas condições de armazenamento durante determinado período de tempo. É com base nisso que se calcula o prazo de validade “real” do medicamento, e depois, por motivos de segurança, se encurta ligeiramente esse prazo para escrever o prazo de validade que está impresso na caixinha.

Portanto sim, é verdade que o medicamento muitas vezes está “bom” mesmo depois de passar o prazo de validade impresso, mas depende muito de vários factores, que não podem ser garantidos por nenhum profissional de saúde:

  • Se esteve armazenado em condições ideais: dentro da sua embalagem original, com o mínimo de contacto com o ar, luz, e calor intenso acima dos 25°;
  • Se não é um produto que tem uma validade depois de aberto. Isto pode-se verificar em colírios, xaropes e pomadas habitualmente, e pode aparecer sob a forma de um símbolo com uma caixa cilindrica aberta, com um 6M ou 12M escrito. Depois de aberto um produto entra em contacto com o ar e isso muitas vezes é o suficiente para iniciar um processo acelerado de degradação: por isso esta ressalva ao prazo escrito na embalagem.

Mas o que é esta degradação?

Como já referi, os processos podem ser muitos, mas o resultado é mais ou menos simples: A molécula A, que era a nossa substância activa (aquilo pelo qual tomamos o nosso medicamento), deixa de ser a molécula A e passa a ser uma prima dela qualquer. Essa prima às vezes é fixe, mas normalmente não é: ou porque não tem todo o efeito que precisava de ter, ou porque pode até ter efeitos negativos.

Em jeito de conclusão, o que é que devemos fazer relativamente aos medicamentos que estão fora do prazo (impresso ou depois-de-aberto), ou que estiveram em condições de armazenamento menos-que-adequadas? Entregá-los na farmácia.

Numa situação ou outra mais urgente, em que o prazo tenha sido ultrapassado por pouco, pode falar com o seu farmacêutico para saber se será algo que poderá ser infringido pontualmente, mas não é nem de longe a regra geral: quando falamos de medicamentos devemos sempre jogar pelo seguro e é escusado estarmo-nos a colocar em risco desnecessariamente.

Texto escrito pelo João.

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