O MEDICAMENTO ESGOTOU !

Ora bem, cá vai mais um tópico em que não se pretende chegar a lado nenhum: Medicamentos e dispositivos esgotados.

Em qualquer momento temos uma lista com pelo menos uma meia-dúzia de medicamentos (ou outros produtos) que, fazendo parte do nosso stock habitual, se encontram esgotados. Aqui me encontro hoje para expor a nossa visão acerca desta situação, e, spoiler alert: é extremamente frustrante para nós também.

No seguimento de despedaçamentos de corações, este tópico está lá no top. Sei que não falo só por mim quando digo que trabalhamos numa farmácia para ajudar as pessoas que lá vão pedir conselhos, certamente, e ainda para complementar os cuidados de saúde que foram prestados pelo médico. Mas estas situações desviam completamente o nosso foco de atenção introduzindo obstáculos enormes à prestação destes cuidados.

Mas afinal, porque esgotam os medicamentos?

Há muitos motivos, e muitos níveis de “esgotamento”. Quanto a motivos, pode haver uma quebra na produção ou uma quebra na distribuição: quer dizer, na fábrica do medicamento, ou na distribuição dos laboratórios aos armazenistas, ou destes às farmácias. Às vezes um medicamento novo com uma campanha de marketing imprevisivelmente bem-sucedida acaba por ter uma procura maior do que a quantidade produzida. Às vezes lotes inteiros têm de ser destruídos devido a problemas de produção. Às vezes acabam-se as matérias-primas… As causas são muitas, e de uma natureza tão diversa que é impossível precavermo-nos contra todas.

O medicamento pode ainda estar esgotado durante uma semana, um mês ou vários, ou até ter tido a sua produção descontinuada completamente. Por vezes o fornecimento é apenas reduzido, e o número de embalagens que cada farmácia pode adquirir passa a ser controlado, ou por vezes nem o armazém consegue arranjar nenhuma embalagem…

Infelizmente, ainda existe a possibilidade de exportação paralela. Isto consiste em “desviar” alguns medicamentos para outros países, e é legal dentro de determinados parâmetros. Num país como Portugal, em que o preço dos medicamentos é altamente regulamentado e sujeito a margens de comercialização estreitas, por vezes torna-se inviável economicamente para os laboratórios e distribuidores que vendam todo o seu produto cá. Isto não teria problema se houvesse quantidade suficiente para todos, mas por vezes não existe, e Portugal fica a carecer. Não sei qual é a magnitude do efeito, e sei que estão em vigor medidas legais que previnem que isto ocorra comprometendo o fornecimento do país. Por isso mesmo, alimentar a crença de que todos os problemas de medicamentos esgotados são devidos a exportação paralela, é estar a simplificar demasiado a questão. Não podemos partir deste pressuposto se pretendemos estabelecer uma relação minimamente produtiva com os laboratórios.

O que é que nós fazemos?

Como já disse lá atrás, os medicamentos esgotados são uma grande dor de cabeça também para nós detrás do balcão. Implicam que criemos listas de medicamentos esgotados, ou passíveis de esgotar (existem alguns que parecem ter uma tendência maior para esgotar); implica ligar todos os dias para os armazéns para saber se têm alguma embalagem que nos possam dispensar para um dos nossos utentes; implica entrar em contacto direto com os laboratórios e passar horas em linha de espera, esperando criar algum tipo de fornecimento SOS… Mas pior que tudo, implica muitas vezes encarar o utente nos olhos e dizer-lhes que não conseguimos resolver o problema que a nossa profissão diz que devíamos conseguir resolver.

O Infarmed já tem um sistema em funcionamento para lidar com este assunto. Regularmente recebem uma lista de medicamentos que as farmácias estão a pedir aos armazenistas e não estão a receber. Quando algum medicamento esgota completamente, com previsões de retorno demoradas, o Infarmed inclusivamente entra em contacto com os sistemas de prescrição dos médicos para que eles também sejam informados (o medicamento deixa de fazer parte das possibilidades de prescrição). Não funciona perfeitamente, mas já funciona bastante bem… Ainda que, recorrendo a receitas manuais, nos apareçam por vezes prescrições com medicamentos que “o médico não conseguiu passar no computador…” e que, naturalmente, nós também somos incapazes de concretizar.

Que soluções temos para o utente?

Atrás de todas as complicações de produção, distribuição e prescrição, há uma pessoa que realmente fica prejudicada: o utente. Mas existem algumas soluções possíveis da sua parte.

  • Se o medicamento em questão é um produto de venda livre, certamente que o farmacêutico lhe aconselhará uma alternativa. Muitas vezes contém a mesma substância na mesma dose, mas mesmo que a substância e a dose sejam diferentes, estará certamente indicado para a situação que lhe interessa. É uma oportunidade para experimentar algo novo, que até poderá ter melhor resultado do que o outro.
  • Se o medicamento tem um genérico… Aproveite para experimentar! Compre o genérico. Compreendo que possam existir preferências de laboratório (ainda que pessoalmente não as tenha), mas numa situação de um medicamento efectivamente esgotado a necessidade sobrepõe-se a uma preferência, certo?
  • Se o medicamento tem uma embalagem disponível que tenha uma dose diferente (mas divisível), uma quantidade de comprimentos diferente, ou uma apresentação diferente, discuta a possibilidade de uma alteração com o farmacêutico e depois confirme com o seu médico. Pode demorar um pouco mais, mas pelo menos a situação tem uma solução razoável.
  • Se o medicamento não tem no mercado nenhuma alternativa terapêutica… Estas são as situações verdadeiramente problemáticas. Só o médico poderá indicar alguma alternativa que se possa adaptar à sua situação, e por vezes, pode isso não existir.

E então, depois de fazermos possíveis e impossíveis para tentar arranjar alguma embalagem resignamo-nos a esperar. Há pouco mais que possamos fazer. E sim, podemos chamar todos os nomes que quisermos aos laboratórios, mas não sabemos o que aconteceu de tal modo que só podemos confiar que também eles têm interesse em restabelecer o fornecimento e rezar para que o façam tão cedo quanto possível.

Terminando na nota aporética com que disse que ia terminar,

Pois.

 

Texto escrito pelo João.

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