DIÁRIO DE UM ESQUECIMENTO #2

O diagnóstico

Enquanto esperava na sala de estar, passei em revisão mental uma boa parte do filme da nossa vida, as recordações e todos os episódios bonitos e menos bons que vivemos ao longo destes quarenta anos. Fiz um esforço para tentar perceber quando teria começado o teu esquecimento. De vez em quando era assaltada pela dúvida e, a meio do filme em pensamento, tinha de parar para ponderar se realmente teria sido naquele momento que tinhas começado a esquecer.

Tremi de ansiedade quando o médico me chamou ao gabinete. Sentada apertando com força as mãos nos braços da cadeira ouvi o que mais temia: não havia qualquer sombra de dúvida, todos os exames confirmavam que sofrias de uma demência.

A partir daquele momento todos os esquecimentos tinham um nome, um porquê.

E, quando fosse abordada pelo vizinho maldisposto a queixar-se que tocavas na sua campainha em vez da minha, já poderia explicar que o culpado tinha um nome, Alzheimer.

Além de achar que o gabinete escuro do neurologista combinava com as suas palavras, com o diagnóstico, pensei também que naquele momento em que se recebe uma notícia demolidora, a abordagem poderia ter sido diferente. Porque além da medicação há outra abordagem muito importante a ter em conta: o acompanhamento de quem irá passar a estar lado a lado com esta doença.

Num misto de revolta e emoção guardei os teus relatórios e exames rapidamente na mochila, porque precisava de sair dali, porque tinha as lágrimas presas por um fio. Porque te queria abraçar.

Está tudo certo…

Hoje não.

 

 

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