DESTRALHAR NAS MUDANÇAS

Quando comecei a pensar no plano da mudança de casa, decidi mergulhar logo no caos e começar a tratar da arrumação, mas estava loooonge de imaginar que quase me afogaria em 22 anos de TRALHAS!

Apesar de a família ter crescido ao longo destes anos – okay, passámos de dois a seis, terá sido isso? – a quantidade de coisas que foram sendo guardadas e que nunca maís viram a luz do dia é verdadeiramente inacreditável. Shame on us.

Ingenuamente acreditava que todo o processo seria mais simples e rápido do que qualquer um dos meus quatro partos… Mas mudar de casa acabou por se revelar um episódio bem mais stressante do que esperava.

Para além de ser dispendioso, o processo envolveu algum esforço físico e acima de tudo um esforço emocional: somos obrigados a escolher entre uma panóplia de objectos pessoais e “auxiliares de recordações” que muitas vezes já não espalhavam a felicidade há mais de uma década, parafraseando Marie Kondo, a guru da arrumação.

Todas estas tralhas começam a sair do quarto escuro – das gavetas, arcas e armários – e subitamente estão a espalhar apenas a dúvida sobre o que lhes fazer, e o terror generalizado que acompanha qualquer processo de indecisão.

Ver-me livre delas? Doá-las? Deitar fora nos contentores da reciclagem? Empacotá-las e mantê-las comigo até que a morte nos separe? Será que iria sentir saudades desta ou daquela tralha?

Houve momentos de arrancar cabelos em que a vontade de atirar tudo pela janela fora foi mais que muita. Chega uma altura em que já só queremos libertar o espaço para conseguir ver a luz ao fundo do túnel que é a nova casa limpa e arrumada.

Mas com umas inspirações e expirações, uns golinhos de água fresca mantive a serenidade, resfriei os impulsos deixando fluir a clarividência que era necessária para perceber que teria de guardar algumas das tralhas pois iriam fazer falta durante o período de transição entre casas, evitando ter que ir a correr comprar coisas que afinal faziam falta e tornar a mudança ainda mais dispendiosa.

Traçou-se um plano, e claro que com isso também se traçaram alguns erros que aqui pretendo expiar.

Parei e olhei em volta para decidir por onde começar a pegar o touro pelos cornos, optei por dar início à empreitada pelas roupas deixando a arrecadação para o fim.

Asneira. Da grande.

Se pudesse rebobinar a cassete (sim ainda sou do tempo destas fitas magnéticas para gravação de áudio), a primeira coisa que diria a mim mesma seria: “Queres poupar tempo, economizar energias e manter a sanidade mental? Começa pela arrecadação”.

Não sei se é apenas defeito da minha ou de todas as arrecadações em geral, mas tudo o que lá caí lá reproduz-se como os cogumelos. Eu pertenço ao grupo daquelas pessoas que sofre de guardomania (não é uma doença a sério). Ou seja, toda a tralha que não cabe ou não merece um lugar em casa, é gentilmente agraciada com o direito a ser guardada na arrecadação… e depois logo (não) se vê.

Aquilo que restou foi uma forte motivação para garantir que a minha próxima arrecadação seja organizada por ordem alfabética com direito a cão de guarda à porta 😉

Para arrumar as roupas, malas e malinhas, casacos, sobretudos e gabardinas escolhi os sacos azuis com fecho-éclair daquela loja sueca lá para as bandas de Alfragide, que se revelaram óptimos para guardar as roupas de cama, os turcos e tudo referente à categoria tralha têxtil.

Para nos aguentarmos durante aqueles dias de mudança, organizámos uma mala pequena para cada um com a roupa, os objectos de uso pessoal, o boneco preferido, o ó-ó e afins, para garantir que pelo menos as noites seriam minimamente familiares.

Também importante foi preparar as mochilas para todas as actividades extracurriculares dos miúdos, para evitar aquele stress de “onde está o barrete do Wally?” e o consequente aparecimento de mais cabelos brancos.

Muito soro para lavar o nariz e um anti-histamínico oral ajudaram-me a enfrentar as crises alérgicas: o nariz ora entupido ora a pingar, e os espirros em catapulta provocados pela quantidade de pó e ácaros que enfrentei assim que comecei a destralhar.

Para evitar surpresas de última hora, como afinal este pechiché não cabe na casa para onde vamos, fomos ver o espaço para avaliar se as nossas outras mobílias também caberiam ou se eventualmente teriam de ser desmontadas.

Cada um dos miúdos ficou responsável pelas suas tralhas e respectivos brinquedos.

Para tornar a escolha mais fácil distribui três sacos para cada um. O primeiro para as tralhas partidas que seguiram para o ecoponto, o segundo para os que ainda estão a uso para levar para a próxima paragem e o terceiro para entregar numa instituição de caridade.

Sei que há diferentes teorias para a idade das roupas sem uso, mas eu achei apropriados os seus “terrible twos” das roupinhas, pelo que tudo o que não via a luz do dia há mais de 2 anos foi doado, reciclado e distribuído pelos familiares e amigos.

Penso que ainda estou a digerir “traumaticamente” esta mudança.

Agora dou por mim constantemente confrontada com a hipótese de que qualquer coisa que esteja para comprar, poderá vir a ser tralha… Assim, penso uma, duas e se for preciso três vezes. Faço uns exercícios de mindfulness e por fim avalio qual será o tempo de semivida do “espalhamento de felicidade” que essa coisa terá na minha vida.

É cansativo e talvez seja apenas esta espécie de trauma das arrumações, mas na realidade: quanto tempo dura uma coisa antes de se tornar tralha? Quantas semanas, meses ou anos vão desde o brilho da alegria (“the spark of joy”) até à opacidade empoeirada dos ácaros? Será que vale a pena?

Não sei, mas a conversa já está também a ganhar pó. Vou buscar o material de limpeza que parece que nem chegou a deixar as minhas mãos durante estes dias.

E por aí já começaram a destralhar?

 

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