(DES) EQUILÍBRIOS ÍNTIMOS

Numa manhã de sábado,  bastante movimentada por sinal, sou abordada por uma utente que me sussurra algo que tenho dificuldade em ouvir. Apercebendo-me que se trata de um assunto sensível, encaminho-a para o gabinete onde podemos falar mais à vontade.

– Nem sabe o que me aconteceu! Há uns dias experimentei umas calças numa loja e desde de ontem que não consigo parar de me coçar… Devo ter apanhado uma daquelas coisas da Cândida, sabe? Eu sabia que não devia ter experimentado as calças, eu sabia!
Tento descansá-la explicando-lhe que caso se trate de uma candidíase, dificilmente se transmitiria dessa forma.
Durante muitos anos as candidíases eram associadas em exclusivo à transmissão sexual ou falta de higiene, hoje em dia, sabemos que isso não é bem assim.
A flora vaginal é constituída por inúmeras bactérias, algumas delas “boas” e outras “menos boas” mas que se mantêm em equilíbrio. Na manutenção desse equilíbrio, os lactobacilos (bactérias “boas”) têm um papel importantíssimo. Para além de não deixarem que outros microorganismos se desenvolvam e causem doença, são ainda responsáveis por produzir ácido láctico que mantém o pH vaginal ácido, nada apetecível para o crescimento de fungos e outras bactérias patogénicas.
Algumas patologias, a toma de determinados medicamentos, desequilíbrios hormonais, ou simplesmente o stress, podem gerar instabilidade neste sistema e permitir que microrganismos como o fungo Candida albicans, cresça de forma desmedida e dê origem aos sintomas característicos da candidíase. 
No decorrer da conversa diz-me que acabou de fazer um antibiótico para uma amigdalite. E bingo! A causa do desconforto vaginal é provavelmente uma candidíase sim, não  provocada pelo uso das tais calças, mas sim, pelo antibiótico!
Os antibióticos “matam” as bactérias ditas “más” mas no processo acabam por destruir algumas “boas”, daí ser frequente mulheres desenvolverem candidíases após a toma deste tipo de medicamentos.
Apesar da confirmação das minhas suspeitas, pergunto ainda sobre alguma alteração do corrimento vaginal, que me diz ser em maior quantidade e de aspecto leitoso mas sem cheiro. Tudo características de uma candidíase.
Como se trata de uma situação pontual, aconselho-a a usar um antifúngico de acção local na forma de óvulos durante três dias antes de se deitar e ainda um creme antifúngico para aplicar externamente de manhã e à noite durante seis dias.
Aconselho-a ainda à utilização de um produto de lavagem íntima com propriedades calmantes para ajudar com o desconforto nesta fase e indico-lhe um outro para higiene íntima diária pois  apercebo-me que utiliza gel de banho. Os géis de banho que utilizamos para a pele, nem sempre estão indicados na lavagem íntima, quer pela presença de algumas substâncias nocivas à flora vaginal, quer pelo pH que muitas vezes apresentam.
Apesar de não ser a forma mais recorrente de aparecimento de candidíases, alerto-a também para o risco de transmissão ao parceiro sexual e aconselho-a ao uso de um método barreira não susceptível de ser afectado pelo creme antifúngico que vai utilizar.

Termino a conversa aconselhando-a a estar atenta aos sintomas e se estes não melhoraram ou se tiver alguma queixa deste tipo nos próximos meses, a consultar um médico pois existem mulheres que têm episódios de candidíases  recorrentes que podem ter que recorrer a antifúngicos orais e nestes casos tem que existir sempre um acompanhamento médico.

A senhora saiu do gabinete bem mais descansada e muito mais esclarecida.
É importante que nós, farmacêuticos, participemos na desmistificação destas situações e, sem julgamentos, aconselhemos os nossos utentes com base na ciência e com o coração.
Texto escrito pela Paula.

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