SE TOMAR MEDICAMENTOS POSSO BEBER ÁLCOOL?

No outro dia dei por mim a ser farmacêutico longe do balcão (okay, não é como se fosse a primeira vez, mas de qualquer forma, apresentou-se como uma situação paradigmática pela qual já muita gente deve ter passado): um amigo, naquela altura a tomar antibiótico para uma qualquer infecção respiratória, tinha também uma festa de aniversário à qual não podia faltar, pelo que me perguntou: “É mesmo verdade que não posso beber álcool enquanto estiver a tomar medicamentos?”

Como já podemos adivinhar, a resposta não é simples, mas a conclusão será.

O álcool (neste caso o etanol) tem diversos efeitos no organismo, mas podemos considerar como “principais” aqueles que ocorrem no fígado, nos rins e no sistema nervoso central.

No fígado: o etanol é processado principalmente no fígado a acetaldeído e posteriormente a acetato. O acetato pode ser usado para produzir energia. Para já, fiquemos com a ideia de que quando bebemos álcool o nosso fígado fica ocupado neste processo.

Nos rins: de uma forma nada científica, concordemos que o álcool “baralha” o nosso organismo quanto à quantidade de água e sais que realmente tem. Por isso vamos mais vezes à casa de banho e estamos muito propensos a desidratar. Esta desidratação é também a causa de dores de cabeça na ressaca.

No sistema nervoso central: é um depressor. Inibe de uma maneira geral todas as funções dos neurónios. Inicialmente isto pode parecer contra intuitivo, mas quando se está no estado de “euforia” é na realidade porque foram inibidos os mecanismos de inibição. Esta depressão no sistema nervoso central é também de muita importância.

Bom, já falámos então no efeito do álcool no corpo. Então e os medicamentos? Como toda a gente sabe, não há uma panaceia para tudo, pelo que cada medicamento terá os seus efeitos em sistemas preferidos. Desta forma, há medicamentos que serão pouco afectados pelo seu consumo com álcool, e outros que serão muito afectados.

– A grande maioria dos medicamentos é processada no fígado. Se o fígado estiver ocupado com o álcool pode demorar tempo a mais para metabolizar o medicamento. Existe ainda a estranha possibilidade de alguns medicamentos serem metabolizados mais rapidamente do que é habitual graças à presença de etanol.

Isto significa que a dose de medicamento torna-se superior ou inferior durante mais ou menos tempo do que é expectável, com prejuízo do efeito (imagine-se que tem um anti-histamínico no organismo durante tempo a mais e, por causa disso, passa o dia inteiro cheio de sono, ou um antibiótico que é metabolizado rápido demais e, por causa disso, não tem tempo suficiente para actuar sobre a bactéria).

– Alguns medicamentos estão intimamente relacionados com o equilíbrio de sais minerais e água no nosso corpo. Entre eles contam-se os anti-hipertensores, por exemplo. Alterações na função dos rins podem alterar o efeito destes medicamentos.

– Existem muitas doenças que requerem medicação para “deprimir” o sistema nervoso central. Doenças como a esquizofrenia ou mesmo a insónia requerem medicamentos que já são por si depressores. A adição de álcool potencia este efeito, o que é extremamente perigoso, por se poderem atingir rapidamente níveis perigosos, assim aumentando a possibilidade de paragem respiratória ou mesmo coma.

Uma vez somados todos estes efeitos, podemos rapidamente perceber que misturar medicamentos e álcool não é boa ideia. No entanto, isto não é completamente proibitivo.

Primeiro que tudo há que investigar o tipo de medicamento que se está a tomar.

Muitos deles têm indicações relativas à sua interacção com o álcool mesmo no folheto informativo. Alguns serão (relativamente) indiferentes, outros podem ser moderadamente influenciados pelo consumo, e existem também muitos que são de facto perigosos de serem misturados. Leia o folheto informativo.

Guie-se pelo bom senso.

Mas lembre-se de todos os efeitos possíveis que estivemos a falar e tenha em conta que, quanto maior for a dose maior é a probabilidade de ocorrerem.

No caso do meu amigo, o medicamento era um antibiótico em particular que tinha pouca interação com o álcool, conforme verifiquei. Tendo em conta o tipo de “festa” a que ele se referia, assim como o estado de saúde em que ele se encontrava, fiz o seguinte raciocínio:

– o medicamento não interage muito com o álcool, por isso é possível beber um pouco sem ter problemas de maior.

– o estado de saúde em que ele se encontra requer descanso e hidratação, e está a perturbar-lhe a respiração.

– a festa vai levar facilmente a um consumo excessivo de álcool se não forem impostas medidas sérias.

Logo, “autorizei-o” ao consumo de um copo de champanhe para celebrar o seu aniversário. Só esse e apenas esse. Afinal de contas, estávamos a celebrar à saúde dele…

Em caso de dúvida pergunte ao seu farmacêutico de família 😉

Texto escrito pelo João.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *