Os medicamentos da vizinha

Não se passa uma semana sem que apareça ao balcão alguém com uma questão muito semelhante a esta:

“Bom dia/tarde, eu queria XXX.”

Dispenso um olhar inquisitivo, muitas vezes acompanhado de uma “É para alguma situação em particular em que eu possa ajudar?”, e sou confrontado com a terrível resposta:

“Um/a vizinha/amiga/familiar toma, diz que se deu muito bem, e por isso também queria experimentar.”

Dá vontade de meter a palma à testa, gritar a todos os santinhos que me levem dali p’ra fora para não ter uma vez mais de enunciar o sermão.

Pessoas. Por favor. Gosto muito de vocês, mas aprendam isto: “A mézinha da vizinha não é melhor minha.”

Não quero dizer que não faça sentido questionar sobre o assunto. Quantas vezes já fomos surpreendidos por um conselho que era realmente bem dado. MAS, e isto é um grande MAS, isto não é a Regra – é a exceção.

Imaginemos uma situação extrema: o seu vizinho, que por sinal é doente oncológico e está a fazer terapêutica da dor, é também uma pessoa muito pouco consciente, e decide dizer-lhe a si – que deu um jeito no ginásio e tem uma dor incomodativa no ombro – que o medicamento Y é “muita bom,” e tira as dores todas. Ora consta que o medicamento Y é um opiáceo, “primo” da heroína. Parece-lhe bem? Não? Pois.

Nem todas as situações são assim tão tcha-na!, mas pensem um pouco sobre esta e lembrem-se que os medicamentos (e mesmo os suplementos alimentares) não são uma iguaria alimentar, a mais recente novidade tecnológica, ou a nova tendência de moda, e como tal não devem ser usados sem aconselhamento prévio.

E já agora, o mesmo é válido para pomadas, cremes e geles medicamentosos! Lá porque se põe na pele não quer dizer que não venha a fazer mal. Afinal de contas, se espera que lhe faça bem, então acredite que também lhe pode fazer mal.

Terminando numa nota mais leve: sabem as pessoas de quem eu mais gosto? Aquelas que me dizem: “Olha lá João, o meu pai tem lá em casa um creme para as dores, chamado qualquer-coisa-Z que diz que é muito bom. Eu não pus, não fosse agora fazer-me mal, mas o que é que acha, é que eu tenho aqui uma dor assim-assim (…)?“

Contexto, gente… cada um tem o seu, e ninguém devia tomar nem aconselhar nada sem o saber.

Fotografia Pau Storch

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