Farmácia de serviço, a pílula do dia seguinte

Três da manhã toca a campainha. Através das câmaras de videovigilância vejo um vulto junto à porta.

Sou assaltada por uma checklist de mental de SOS (s):

Vem da urgência?

Talvez uma receita com antibiótico ou anti-inflamatório.

Um pai aflito à procura da lata de leite para o bebé?

Alguém a precisar de um soro de hidratação para tratar uma intoxicação alimentar…

Uma pasta de dentes ou uma caixa de preservativos?

Abro o postigo e vejo uma rapariga de top dourado, cabelo penteado com gel, vários furos a treparem as orelhas e um par de argolas grandes a contornar o rosto. Parecia vinda de uma festa ou de uma saída à noite. Sinto o cheiro a tabaco e um hálito a álcool no “Olá, boa noite”.

Pede-me a pílula do dia seguinte e começa a contar-me o que tinha acontecido naquela madrugada

Estive com um rapaz, não usámos preservativo por isso estou aflita, preciso urgentemente da pílula do dia seguinte. Não quero ficar grávida. Não posso ter um bebé agora.

Quando termina pergunto-lhe delicadamente se usa habitualmente algum método contraceptivo.

Responde-me:

– Não. Tenho sempre uma caixa de preservativos na mala mas hoje esqueci-me!

Fiquei em silêncio durante alguns segundos a pensar que não podia deixá-la ir embora levando apenas o medicamento. Assim continuei a conversa da maneira mais positiva que me lembrei naquele momento:

– É óptimo usar sempre o preservativo porque protege-a contra as doenças sexualmente transmissíveis.

Além do preservativo, há outros métodos contraceptivos regulares. Pode marcar uma consulta de planeamento familiar no centro de saúde ou uma consulta com o seu médico de família.

E propus-lhe, sabendo à partida que o não estava garantido:

– Pode passar aqui, na farmácia, outro dia para conversarmos sobre outros métodos que pode usar, sim?

Enquanto passa a mãos nos olhos esborratando o eyeliner preto, responde-me:

– Ok fixe.

Ponho o medicamento no saco e esclareço:

– Apesar de a chamarmos “do dia seguinte” deve tomar o mais cedo possível depois da relação, e se vomitar nas três horas após a toma da pílula do dia seguinte deve voltar a tomar.

Depois de tomar pode sentir: náuseas, vómitos, tonturas, cansaço, ter dores de cabeça e pequenas hemorragias vaginais.

Antes de sair pergunto-lhe se precisa de um táxi.

– Não, obrigada, vim de boleia com uma amiga.

 

São cinco e um quarto da manhã. A luz verde da cruz ilumina a estrada.

A farmácia está mergulhada num silêncio interrompido pelo som das teclas do meu computador.

Não consigo deixar de pensar… podia ser minha filha.

 

“PARA O DIA SEGUINTE”

A pílula do dia seguinte é um método de emergência, destina-se a evitar uma gravidez como consequência de uma relação sexual desprotegida, quando por exemplo:

  • Nenhum dos parceiros utilizou contraceptivo
  • Houve esquecimento da toma da pílula, que ultrapassou o atraso máximo permitido
  • Preservativo mal colocado ou rompeu-se
  • O DIU desloca-se
  • O anel vaginal é expulso antes do tempo.

 

PARA UM USO EFICAZ

A pílula do dia seguinte deve ser tomada o mais cedo possível após a relação sexual desprotegida.

A Pilula de Levonorgestrel é de toma única, deve ser usada até às 72 horas (3 dias) após a 
relação desprotegida.

A Pílula com Acetato de Ulispristal é também de toma única e deve ser usada até às 120 horas (5 dias) após a relação desprotegida.

Ambas actuam sobre a ovulação, atrasando ou inibindo a libertação do óvulo, porém se já tiver havido nidação (implantação do óvulo fecundado no útero), a pilula não tem qualquer efeito sobre a gravidez, não é abortiva.

 

PREVINE A GRAVIDEZ, MAS…

Não impede também que haja uma gravidez se a relação sexual desprotegida se repetir.

Assim é fundamental após a toma da pílula do dia seguinte utilizar o preservativo até ao aparecimento da menstruação seguinte e, caso faça contracepção hormonal regular deve continuar.

A pílula do dia seguinte pode atrasar a menstruação, mas se ela não ocorrer deve fazer um teste de gravidez.

Após um teste de gravidez positivo, deve o mais cedo possível, iniciar a vigilância da gravidez. As consultas de saúde materna e os exames necessários para uma correcta vigilância da gravidez são gratuitos nos centros de saúde.

 

ULTIMO RECURSO

A pílula do dia seguinte deve ser o último recurso, não é isenta de contra-indicações, apesar de ter uma eficácia elevada, a sua toma não protege contra uma gravidez resultante de relações sexuais futuras nem contra doenças sexualmente transmissíveis.

Não deve utilizá-la como contraceptivo regular.

 

Para saber mais sobre a pílula do dia seguinte ler AQUI.

Em caso de dúvida fale com o seu farmacêutico ou farmacêutica de família.

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