Eu, hipocondríaco?

As novas políticas de saúde e os novos hipocondríacos

Vai-se a um sítio qualquer onde se fale de políticas de saúde, e ouve-se muito a frase “deixar o utente escolher o seu tratamento” ou algo semelhante. Parece ser essa a tendência actual. “Óptimo, apoio perfeitamente,” penso para comigo.

Mas há um problema: é que as pessoas não sabem cuidar de si mesmas.

Isto, aliado a uma espécie de pânico salutar que permeia o mercado de hoje (em que nada se vende/impinge que não seja “saudável”), gera aquilo a que gosto de chamar uma hipocondria generalizada.

“Epá dói-me a cabeça um bocadinho.” Se calhar não come há demasiadas horas, ou esqueceu-se de beber qualquer coisa depois de ter andado quatro horas ao sol no deserto. Mas não. Em todo o lado nos dizem que temos de nos rodear de saúde, e se estamos doentes (ou temos um qualquer sintoma que poderá ser doença), então é porque não nos estamos a rodear de saúde suficiente, logo toca de ir aos cuidados primários, porque há de certeza qualquer coisa para esta situação.

Este género de situações geram dois tipos de resultados:
  • Ou a pessoa decide que sabe tudo acerca da situação e nem precisa de consultar um profissional de saúde, automedicando-se ao primeiro sintoma (normalmente com analgésicos e anti-inflamatórios, mas há de tudo…)
  • Ou a pessoa está constantemente a ir às urgências, ou para os mais sensatos, à Farmácia.

 

Sabem o que é que fazia aqui falta mesmo? Era uma solução simples e uma maneira fácil de identificar sintomas e situações alarmantes que permitissem então distinguir se me devia automedicar, ir à farmácia, ao médico, ou simplesmente experimentar esperar e ver se passa.

O quê?! Como assim não há?!

Pois é, o meio-termo é uma vez mais um equilíbrio difícil de atingir. Há doenças crónicas com manifestações agudas, e doenças agudas praticamente sem quaisquer manifestações (e ainda outras combinações destes termos). E não há maneira de as distinguir completamente a não ser caso a caso.

Assim, ainda que por vezes os nossos hipocondríacos de estimação me chateiem o juízo, não tenho para eles uma melhor alternativa. Devemos estar atentos ao que o nosso corpo nos está a dizer, e se há alguma alteração pela qual damos conta, devemos mantê-la debaixo de olho. Mas também não podemos deixar que essa preocupação tome conta da nossa vida! – cá está o ténue equilíbrio de novo…

E já agora, mais uma nota para rematar… Se quer realmente saber se um determinado sintoma é grave ou não, ou se pretende saber como melhor proceder a uma automedicação, então

Estudasses!

E não quero dizer ler um ou dois sites manhosos sobre o assunto. Estou a dizer mesmo estudar a sério, até que me consiga explicar, sílaba a sílaba, o que é que cada palavrinha no folheto informativo quer dizer.

Acho que é este o problema destas novas políticas de saúde com que comecei este texto. Assumem um homem culto e educado enquanto utente. Uma pessoa que, mesmo não sabendo tudo acerca da sua saúde, sabe o suficiente para compreender a gravidade de uma situação, e tomar decisões relativas a ela. Parece-me, no entanto, que a realidade é diferente.

Eduque-se a população se se pretende que ela tome decisões sensatas. – (João 2018, caso me queiram citar nisto)

A que conclusão chegamos nós então? E que é que devo fazer quando tenho um daqueles sintomas que não sei bem se é grave ou não?

O bom senso não é infalível nem sequer objectivo (longe disso!). Mas nesta situação em particular, acho que não tenho nada melhor para aconselhar…

Texto escrito pelo João.

E já sabe que se tiver alguma dúvida, fale com o seu farmacêutico 😉

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