Desejos ao balcão da farmácia

Dia 31 de Dezembro, de 2017

Depois de preparar o fecho do ano e toda a burocracia que isso envolve, sento-me ao balcão da farmácia e escrevo acerca dos desejos para o novo ano.

O balcão não é apenas o sítio onde se colocam as receitas e as caixas dos medicamentos. É onde as pessoas falam sobre si, sobre os seus, sobre as suas doenças e conquistas, do bebé que está a caminho, confessam a saudade que têm de quem está longe e de quem já não está. Aqui partilham connosco quase todas as suas histórias.

A Fátima, uma das nossas pessoas queridas, veio à farmácia esta semana, pedir ajuda para concretizar um desejo da sua sobrinha para dois mil e dezoito.

“Luísa, quero fazer uma surpresa à Luana, preciso de máscaras cirúrgicas com bonecos, pode ajudar-me a realizar este desejo?”

Falou acerca do jantar de natal que organizou para as amigas,em vez de trocarem presentes, juntaram o valor e conseguiram comprar uma cabeleira giríssima de princesa Jasmim.

“A menina ficou felicíssima quando a desembrulhou no dia de Natal”.

A pequena Luana tem dois anos e faz tratamentos no IPO.

Catarina, mãe de dois bebés, descobriu há pouco mais de um mês que têm cancro da mama.

Veio buscar fraldas e um creme para os filhos.

Enquanto escolhia o creme não conseguiu conter as lágrimas: “Tenho medo. Não sei como vou reagir aos tratamentos. O médico disse-me que a probabilidade de ficar bem é alta. Ter ido ao hospital assim que detectei o nódulo, foi muito importante. Estava optimista quanto aos resultados dos exames. Tinha a esperança de que tudo não passava de um susto. Que eu não era a protagonista deste filme triste. Mas não há dúvidas, tenho um tumor maligno. Fui operada esta semana e começo os tratamentos em Janeiro.

O meu maior desejo é estar sempre para os meus filhos. São eles que me dão força”.

Durante as últimas semanas, as pessoas desejaram-nos um bom ano com muita saúde!

Seguido imediatamente de uma espécie de verdade absoluta: “porque sem saúde … não se pode fazer nada”.

Eu atrevo-me a dizer que podemos. Atrevo-me a escrever que somos nós que decidimos até que ponto a falta de saúde pode afectar a nossa vida.

Podemos fazer pequenas grandes coisas como oferecer perucas de princesa.

Podemos ficar apenas a ver os miúdos a correrem no parque. Dar um beijinho de boa noite e agradecer mais um dia.

Podemos só ouvir ou apenas abraçar com força.

Podemos simplesmente desejar muito.

Agora vou continuar à procura de fornecedores de máscaras cirúrgicas para uma princesa.

Porque aqui na farmácia os desejos de uma princesa são ordens.

Bom ano*

 

 

 

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